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Bolsonaro aposta na contramão

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Por Henrique Acker*

 

Muito bom dia aos ouvintes do programa Faixa Livre, a toda equipe. Acho que ficou evidente a todos que acompanham o programa Faixa Livre que o presidente Jair Bolsonaro apostou na contramão. Enquanto praticamente todos os chefes das grandes nações do mundo já se renderam à necessidade de um isolamento social de amplo espectro nas metrópoles, nas grandes capitais, de uma maneira geral, e em alguns países de forma até mais radical, o presidente Bolsonaro continua desafiando politicamente essa decisão e, sinceramente, fico curioso para saber o que ele ganha com isso.

 

Atualmente nem o presidente Donald Trump banca esse tipo de posição. Talvez seja uma forma de tentar alinhar com seus correligionários, vamos ver isso mais adiante do ponto de vista político. Existe, obviamente, um cálculo político. Já chegamos à barreira do 1 milhão de infectados e 50 mil mortos pela Covid-19 em todo mundo. No Brasil, até ontem, 300 mortos e 9 mil casos oficialmente reconhecidos, lembrando que existe um processo de subnotificação muito grande, os dados são muito atrasados, quando são divulgados, porque não há testes e, quando se faz os testes, os resultados saem uma semana, 10 dias depois.

 

No campo da economia, estamos assistindo a um verdadeiro espetáculo de repasse de recursos públicos para os bancos. A primeira medida que o governo anunciou foi um colchão de R$ 1,2 trilhão para assegurar a saúde dos bancos em meio a essa crise e, o pior, o ministro Paulo Guedes, da Economia, aproveita a crise para tentar ampliar os tentáculos das medidas neoliberais que ele já propunha antes: a reforma administrativa para reduzir os investimentos públicos, os salários e a jornada de trabalho dos servidores, acabar com concurso público, enfim, terra arrasada no serviço público, embora nesse momento ele não possa anunciar essas medidas para os servidores da área da saúde por motivos óbvios.

 

Ele cria uma exceção, mas essa exceção se tornará regra mais adiante. Essas medidas durariam até 2024, não é apenas para essa fase da pandemia da Covid-19, e o pior, ele ao invés de exigir ou impor primeiro que as empresas não demitam para terem acesso a algum tipo de crédito, não, propõe que as empresas possam reduzir salários e jornadas e que o governo compense com parte do seguro desemprego aquilo que o trabalhador teria direito. É uma medida extremamente absurda em um momento em que as pessoas querem ter segurança, a possibilidade de resguardar sua renda e seu trabalho, o governo propõe exatamente o contrário.

 

A outra preocupação é como ficam as contas de luz, água e telefone já que as pessoas estão mais em casa, os custos aumentam, e o pior, o governo está chantageando o Congresso Nacional no sentido de aprovar todas as medidas que interessam enquanto governo antes de o senhor Bolsonaro liberar os R$ 600 do chamado ‘coronavoucher’ para os trabalhadores do mercado informal, que estatisticamente são 38 milhões em todo país. Você imagina quantas pessoas dependem desse conjunto de trabalhadores.

 

No meio desta crise, evidentemente teríamos que destacar que saídas, que soluções a classe trabalhadora, o povo brasileiro teria em vez de repassar R$ 1,2 trilhão dos cofres públicos como colchão para o sistema financeiro e para os bancos. Em primeiro lugar, até o Fundo Monetário Internacional admite que é preciso rever neste momento o pagamento das dívidas dos países em desenvolvimento, e nisso ele incluiu o Brasil. Nós vamos continuar pagando quanto de juros e amortização de dívida pública mensal para esses mesmos bancos credores da nossa dívida?

 

Essa questão já está apontada no horizonte, foi o próprio Fundo Monetário Internacional que levanta essa lebre. Se o próprio FMI diz que esse é o momento de repensar ou pelo menos congelar os recursos que são carreados para pagamento de dívidas públicas em países em desenvolvimento, essa medida já deveria estar no horizonte do governo brasileiro, mas não, é um governo subserviente cada vez mais ao sistema financeiro e a esse projeto ultra neoliberal.

 

As outras medidas seriam taxar os dividendos dos bancos, que chegam a mais de R$ 50 bilhões só no ano de 2019 para os seus grandes acionistas e também as grandes fortunas. Só com isso, seria possível fazer um programa social para atacar as consequências sociais e econômicas para a classe trabalhadora e para a maioria do povo brasileiro nesse momento da crise da Covid-19. Agora o que preocupa e muito é a situação da saúde pública. Vamos falar um pouquinho da saúde pública do Rio de Janeiro, que já era caótica antes dessa crise, e agora, como está?

 

O estado quebrado, endividado, o governador, apesar das medidas que estão sendo adotadas, denuncia que muito poucos recursos foram repassados até agora para poder melhorar o atendimento nos hospitais, algumas iniciativas estão sendo tomadas como a construção de hospitais de campanha, a abertura de leitos, a tentativa de comprar respiradores e tudo mais, agora é importante observar duas coisas: a indústria farmacêutica no Brasil age quase que como uma montadora, os insumos básicos para poder fabricar medicamentos, para poder ter respiradores, máscaras, toucas, coletes e tudo mais, tudo isso vem de fora, em especial da China, que é quem exporta para o mundo inteiro.

 

Como estamos vivendo uma crise internacional, temos até de abrir um parênteses para a atitude mais uma vez vergonhosa do presidente norte-americano, que pula na frente das demais economias e da demanda dos outros países, não só do Brasil, faz encomendas a empresas chinesas e leva uma frota de aviões cargueiros norte-americanos para poder resgatar uma compra enorme somente para poder atender ao público interno nos Estados Unidos porque os Estados Unidos têm 50 estados e a crise atinge pelo menos a metade desses estados em cheio, sendo Nova Iorque o carro chefe.

 

São cerca de 200 mil pessoas já atingidas pela doença e a previsão é que se chegue entre 100 e 200 mil mortes ao final desta crise nos Estados Unidos, lembrando que este é ano eleitoral, então o desespero do governo Trump tem a ver com isso. É a chamada ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’. Estamos sem respiradores, sem os equipamentos e sem os insumos necessários no Brasil e em outros países para atender essa crise porque as empresas chinesas já repassaram sua produção pelo próximo período para os Estados Unidos.

 

Estamos vivendo uma situação bastante angustiante em nível mundial, mas acredito que a humanidade possa sair um pouco mais fortalecida desta situação porque temos dois caminhos a trilhar: ou insistir com o egoísmo, com atitudes, medidas econômicas que beneficiam meia dúzia que comandam o sistema financeiro internacional ou é partir para uma sociedade mais solidária. Acredito que essa reflexão precisa ser feita. Último comentário: lamento muito, mas vejo ainda muitas pessoas, principalmente pessoas de mais idade, descrentes das consequências desta crise que se abate também no Brasil.

 

É preciso que se reforce essa questão do isolamento social, mas que outras medidas sejam tomadas para garantir as condições sobretudo para os mais idosos e para os trabalhadores que estão vivendo um momento de muita incerteza porque temos um governo estritamente comprometido com a causa do sistema financeiro, uma política econômica vergonhosa, uma conta que o governo Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes querem empurrar em cima dos trabalhadores em plena crise, uma crise humanitária no Brasil e no mundo. É esse o meu comentário. Agradeço a vocês do programa Faixa Livre e espero estar com vocês mais vezes agora e depois dessa crise. Um grande abraço.

 

*  Henrique Acker é jornalista

 

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