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Coronavírus e a crise econômica

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Por Plínio de Arruda Sampaio Jr.*

 

Queria começar entendendo o problema. O problema é que o mundo vive uma crise econômica geral, uma crise inédita. As consultorias internacionais estimam que a economia mundial este ano vai crescer zero, ou seja, vai ficar parada, o que caracteriza uma recessão de grande profundidade. O Instituto Internacional de Finanças, que é uma espécie de centro de pensamento dos grandes bancos internacionais, calcula que a queda da economia norte-americana no primeiro semestre será de 10% e na economia europeia de 18%. O efeito desta crise na economia latino-americana será forte.

 

A Goldman Sachs, um banco de investimento que tem muitos negócios aqui na América Latina e fica sempre vigiando a situação, estima uma contração da economia latino-americana de 3,8%, é uma contração forte. No Brasil, as consultorias econômicas, que pecam sempre por subestimar a recessão, já trabalham com a perspectiva de um PIB para 2020 da ordem de -3% e várias delas já acenam com um cenário de -5%. Então a primeira coisa que acho importante ficar claro é que estamos vivendo uma crise grande, inédita. Não é uma marolinha, é uma crise monumental, e não há como o Brasil continuar andando no meio dessa crise.

 

Essa propaganda do Bolsonaro ‘O Brasil não pode parar’ é uma coisa completamente sem pé, nem cabeça porque o Brasil já parou. Parou porque a crise provoca uma queda abrupta do consumo das famílias e isso é da própria natureza da política de enfrentamento da pandemia. A quarentena obriga as pessoas a ficar em casa, obriga a produção a parar e isso tudo desorganiza completamente a economia, isto é uma realidade objetiva que está além da vontade das pessoas. O que podemos fazer é tentar minimizar os efeitos desse problema e, digamos, acelerar a recuperação da economia.

 

Os efeitos da crise serão rápidos, profundos e muito provavelmente duradouros porque esta crise está desorganizando a economia mundial. Os efeitos serão sentidos pela queda do PIB, pela explosão do desemprego. A OIT, Organização Internacional do Trabalho, prevê que o aumento de desempregados este ano pode ser da ordem de 25 milhões, superior ao que aconteceu em 2008 e 2009, e, como consequência, vamos assistir uma explosão da pobreza. Diante deste quadro, que é seríssimo, que configura um momento extraordinário, uma dupla crise, uma pandemia de coronavírus e uma crise econômica geral, o governo Bolsonaro reagiu de maneira péssima.

 

Primeiro demorou muito para entender que vinha uma crise de grande envergadura e, portanto, não se planejou para enfrentá-la, e quando a crise chega, não há nenhum plano de contingência para atenuar os seus efeitos. A crise estava claríssima já em janeiro deste ano. Quando a epidemia de coronavírus na China saiu de controle e virou uma pandemia, estava claro que nós teríamos um problema de saúde e econômico gravíssimos. O governo, em certo sentido, tinha três meses para planejar suas ações. Não fez absolutamente nada. Quando a crise chega no Brasil, a primeira reação foi negar o problema, ‘não tem crise’.

 

Aquela famosa fala do Guedes onde disse que ‘as reformas é que vão resolver a crise’, o que é uma loucura porque a crise coloca na ordem do dia medidas emergenciais, imediatas, rápidas, e as reformas, mesmo que fossem pertinentes e não são, demandam meses, um longo debate parlamentar, então não tem pé, nem cabeça. A primeira reação do Guedes foi ‘eu aproveito o pânico para tirar mais direitos dos trabalhadores’. Quando finalmente a crise se instala, as Bolsas começam a derreter e ficava claro que alguma coisa tinha de ser feita, qual foi a política do governo?

 

Uma política que caracterizo como sendo uma economia política do genocídio. Primeiro colocar a economia na frente da saúde, quando, evidentemente, a prioridade deveria ser inversa, a saúde acima da economia. Isso, na prática, significa negar a gravidade da pandemia e da crise. Isso se traduz naquela propaganda infeliz do governo Bolsonaro de falar que o Brasil não pode parar, que é uma bobagem porque o Brasil já parou.

 

O Brasil tem de parar primeiro para defender a vida das pessoas e depois, claro, há também de se tomar medidas para a economia. No campo da economia, o governo colocou como prioridade absoluta o capital em relação ao trabalho. Dentro do capital, o sistema financeiro. O governo foi bem generoso com o sistema financeiro, abrindo uma série de linhas de crédito para socorrer os bancos e, eventualmente, enfrentar seu problema de liquidez. A reação instintiva: ‘vou defender os bancos, vou defender os banqueiros’.

 

Em seguida, o governo lançou um pacote, a Medida Provisória 927, que depois virou 928, que era um pacote para defender os patrões, os empresários. Defender os empresários dando uma série de regalias, de socorro no momento da crise, mas principalmente permitindo aos empresários se livrar de seus trabalhadores sem nenhum ônus financeiro, ou depois, na Medida Provisória 928, com algum ônus financeiro, mas, de qualquer maneira, a prioridade são os bancos, depois os empresários e, finalmente, para os trabalhadores o governo não fez praticamente nada, a não ser flexibilizar algumas normas para que os trabalhadores possam antecipar o recebimento do 13º e, eventualmente, recorrer ao Fundo de Garantia.

 

São medidas absolutamente injustas e inócuas porque elas não enfrentam o problema. O problema básico do país agora é garantir capacidade de consumo das famílias. Para garantir a capacidade de consumo, o governo tem de garantir renda mínima para toda a população porque a única maneira que as pessoas vão fazer a quarentena é se tiverem segurança de renda mínima e de emprego. O governo deveria garantir o emprego neste período excepcional de dois a quatro meses e renda mínima para que a quarentena pudesse ser feita por todos os brasileiros de maneira igual e séria, mas não é isso que o governo fez.

 

A prioridade é claramente o capital, o que quer dizer que estamos frente a um governo genocida, e não é uma força de expressão, é uma caracterização da política do governo. Genocida na política de saúde porque joga o ônus do ciclo de imunização na população pobre, e genocida na política econômica porque deixa o trabalhador completamente desamparado do ponto de vista material neste período de quarentena. É um governo desastroso, uma política econômica genocida, ela não é inocente, é uma política que beneficia o capital e nós devemos denunciá-la e combatê-la de maneira muito enérgica.

 

Estamos vivendo tempos extraordinários, que exigem medidas e uma luta extraordinária para que a gente possa derrubar esse governo e ter a possibilidade de uma outra política econômica. Para enfrentar a crise econômica, a crise da saúde, a primeira tarefa é resolver a crise política aguda, que tem no seu centro um presidente completamente antissocial e antinacional. Agradeço muito aos ouvintes e vamos continuar a conversa.

 

* Plinio de Arruda Sampaio Jr. é professor de Economia na Universidade de Campinas (Unicamp)

 

Ouça a opinião de Plínio de Arruda Sampaio Jr.:

 

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