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Coronavírus: a lógica é deixar morrer

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Por Nildo Ouriques*

 

Nós devemos descartar o caráter caótico que, em geral, os incautos atribuem ao presidente da República, supostamente às suas declarações estapafúrdias que contêm um grau de irracionalismo e parecem dotadas de um espírito anticientífico, que chocam aqueles que têm o senso comum e que se compadecem com a miséria e a exploração alheia. O protofascista Jair Bolsonaro e o seu irracionalismo contemplam uma racionalidade impecável que naturalmente contempla, em primeiro lugar, os interesses da coesão burguesa que ele dirige e o apoia. Se vocês analisarem todas as medidas do Banco Central, todas as medidas tomadas pelo ministro Paulo Guedes, vão verificar que estão todas elas dirigidas a atender, em primeiro lugar, a fração financeira, tal como está no jornal: “Bancos pedem apoio para oferecer socorro às empresas”.

 

Quer dizer, toda combinação que está ocorrendo nesses dias, ocultada pela angústia sobre a proliferação do coronavírus, garante os interesses burgueses dos banqueiros, dos latifundiários, dos grandes comerciantes e continuam a queimar a riqueza capitalista com a caída sucessiva da bolsa de valores. Então as ações, eu espero que vocês não acreditem na minha leitura, verifiquem e peguem todas as medidas provisórias que são editadas todos os dias e observem como todas e cada uma delas é destinada a garantir não a economia popular, não os empregos e a renda, mas ampliar a super-exploração na força de trabalho e concentrar, centralizar o capital ainda mais desnacionalizando a economia.

 

Teve um dado muito importante na semana passada que foi o empréstimo da reserva federal dos Estados Unidos, o FED, US$ 450 bilhões destinados a vários países: a Coreia do Sul, Nova Zelândia e aqui, na América Latina, ao México e ao Brasil. Ao Brasil foram destinados US$ 60 bilhões, recursos que serão alocados para garantir a saúde do sistema financeiro que todos os dias a imprensa tagarela dizendo que é um sistema financeiro que está estável, um sistema financeiro que goza de solvência, mas que, na prática, não elimina a ânsia dos banqueiros de seguir acumulando em termos de riqueza fictícia, e esses US$ 60 bilhões deverão ser pagos à reserva federal, portanto é um recurso extraordinário que chegou de maneira quase clandestina no Brasil para assegurar o interesse dos banqueiros e o alto grau de endividamento das empresas brasileiras.

 

Estou insistindo nessas duas variáveis porque o debate sobre a crise e a pandemia do coronavírus, já no sexto dia sem proliferação na China em função das medidas que o Estado chinês tomou, estão ocultando a tremenda crise econômica que se abateu sobre o sistema capitalista e que o trilhão de dólares colocado pela reserva federal lá nos Estados Unidos é incapaz de aplacar. As Bolsas seguirão caindo, queimando capital, produzindo desemprego, aumentando a exploração na força de trabalho e começa a se esboçar entre os keynesianos a ideia de que agora a intervenção do Estado para salvar empresas, o emprego, a renda e a economia popular deveriam gozar de alguma autoridade entre nós.

 

Da minha parte, eu recuso por completo essa possibilidade, os liberais estão tomando medidas de intervenção na economia para salvar os bancos, as empresas endividadas, garantir o lucro dessas empresas e aumentar o desemprego e a exploração na força de trabalho no Brasil. A medida provisória destinada a isentar os capitalistas, inclusive pagar salários nos próximos quatro meses, voltará a ser editada, a lógica é impecável, A super-exploração na trabalho governa o capitalismo periférico e não há razão nenhuma para que a sua lei suprema seja suspensa porque nós estamos vivendo uma pandemia. De outro lado, sobre o coronavírus, Bolsonaro atua mais ou menos como Boris Johnson e, em grande medida, como Trump.

 

Eles consideram que a população não vai ser grandemente afetada, que nós deveríamos todos nos contaminar de uma vez porque, observem, segundo a Organização Mundial da Saúde, 400 mil pessoas foram infectadas no mundo, das quais mais o menos 100 mil já saíram da doença. O que o Bolsonaro diz? Diz que os velhos, aqueles que têm problemas de diabetes, um conjunto todo de problemas, iriam morrer de qualquer forma e é inevitável. Então se tivermos 1%, 2% ou 3% da população que sucumba em função do coronavírus, que as mortes sejam apressadas, ele diz claramente que é da natureza humana. Esse comportamento que implica em afirmar que a vida não tem valor entre nós choca naturalmente com a função de medicina.

 

Quero contar para vocês, ainda que rapidamente, uma conversa que tive em uma viagem de Cuba para o México em que sentou ao meu lado um médico que coordenava o sistema de médicos da família cubano e, nessa conversa, ele me falando dos cuidados com as doenças tropicais, e eu disse a ele: Cuba teve um caso de sarampo, dois de varicela ou um de malária. Por que esse cuidado todo? E ele me colocou um princípio ético fundamental, disse: “a medicina cubana existe para combater esses dois casos de varicela, esses três casos de malária, é para isso que existe”. De fato, tem uma lógica impecável, para quem está com plena saúde, nós não precisamos do sistema de saúde e, portanto, aqueles que estão doentes, prejudicados porque têm diabetes ou qualquer outro problema e que o coronavírus pode ser fatal, é para eles que existe o sistema de saúde.

 

Então essa lógica de assumir que a vida não tem grande importância, que nós podemos aceitar a morte de 1% da população, poderia levar alguém a dizer ‘por que não dois?’ e outro afirmar de maneira cínica ‘por que não 5%?’. Percebe? É esse sentido que afirma um certo Darwinismo social que informa o liberalismo dominante, e o critério da rentabilidade é o critério que organiza os recursos absolutamente parcimonioso e insuficientes que organizaram o sistema de saúde como o nosso, precário, com Fernando Henrique Cardoso, com Lula, com Dilma, com Temer, e agora levado ao extremo com Bolsonaro.

 

O sistema de saúde brasileiro sempre foi de uma precariedade absoluta, não me comove, nesse sentido, lembrar de governos passados em que a situação não era tão grave como agora. A situação da saúde, da educação, da cultura, do saneamento básico, do transporte público sempre foi degradada no Brasil em todos os governos, e agora aquela aceitação moral de que não pode fazer muito é levada ao extremo por um governo que, sem inibição alguma, diz claramente ‘que morram alguns’. Bolsonaro chegou a comparar em uma entrevista com uma apresentadora de televisão que o coronavírus seria como uma chuva, alguns podem tomar uma capa, outros vão ficar resfriados e outros vão morrer. E essa irracionalidade tem uma racionalidade completa.

 

Quando a gente aceita o sistema precário de saúde ao longo das últimas três décadas, nós estamos aceitando essa lógica que Bolsonaro agora explicita sem nenhuma inibição. Essa lógica que a gente acha que não dava para fazer tudo, para salvar todas as vidas, ela foi a que regeu nossas vidas até agora, ela regia cada um daqueles atos que consideravam que o que dava para ser feito, foi feito, e nós nunca poderíamos aqui gozar de uma vida plena, com saúde, educação plena.

 

Todos aqueles que aceitaram as migalhas sociais até agora viram que quando a classe dominante tocou o terror contra nós, ela não vacilou em levar essa batalha até o fundo e até o fim, e agora uma grande maioria, 35%, que consideram o governo de Bolsonaro bom e ótimo é porque eles foram acalentados naquele jargão que iluminou a esquerda até agora, que não dava para redimir a pobreza, que o que nós podíamos fazer era mitigar um pouco o sofrimento humano com aqueles programas sociais que tivemos até agora, mas Bolsonaro é a extensão cínica daquela digestão moral que produzimos no Brasil até agora e que causa o isolamento social da esquerda muito mais do que esse confinamento a que estamos todos submetidos.

 

A crise econômica vai se aprofundar de maneira violentíssima, talvez tenhamos 40 milhões de desempregados em breve espaço de tempo. Na periferia capitalista, as leis supremas do nosso desenvolvimento periférico afirmam que a exploração vai se ampliar, que o desemprego será ainda mais intenso, que a saúde e a educação não sairão da crise mais valorizadas e que sobretudo os liberais não abandonarão o comando do barco, ao contrário, o liberalismo continua sendo fortalecido seja pela via do ultraliberalismo ou por essas intervenções keynesianas que não tocam na crise.

 

No meio da crise, é preciso dizer, a classe dominante não dorme, ela atua de maneira absolutamente meticulosa na defesa de cada um dos seus interesses e a possibilidade de uma rebelião popular agora está adiada de maneira definitiva porque os operários estão em alguns sindicatos fazendo greve, se recusando a participar da produção porque estão colocando seu risco em vida. Metalúrgicos de São Paulo estão fazendo isso em alguns setores, mas o sistema de saúde tem de funcionar, esse pequeno heroísmo dos nossos enfermeiros, dos médicos, dos psicólogos e todos aqueles que trabalham cuidando dos demais, eles serão consumidos por esse moinho satânico que é o desenvolvimento capitalista, e nossos heróis anônimos, nossos pequenos lutadores pela liberdade, por um mundo melhor, também serão engolidos como todos nós por essa onda liberal que continua avançando no meio da crise.

 

Agora é hora da reflexão, da crítica, é hora de termos muito claro que precisamos ter uma linha teórica que se exerça de maneira gélida pensando para além das emoções, para além dos impactos, da má notícia, que a gente mantenha uma racionalidade nesse mundo que vai se tornando cego e caótico, que a gente mantenha um ‘ensaio da lucidez’, de [José] Saramago, os olhos bem atentos e, sobretudo, a disposição de que em breve poderemos virar o jogo quando as massas puderem participar da política e quando a esquerda abandonar definitivamente esse espirito religioso que ainda a governa, esse bom mocismo que ainda a orienta, isso em luta da rebeldia de milhões que está sendo gerada nesse abismo social sem remissão que a classe dominante está produzindo todos os dias.

 

* Nildo Ouriques é professor e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina

 

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