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Debate: 30 anos da queda do muro de Berlim

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As diferentes barreiras que afastam nações mundo afora, sejam elas ideológicas, políticas ou econômicas, são comuns na História. Contudo, não é costumeiro o estabelecimento de obstáculos físicos entre dois países. Ainda que haja contrastes profundos, a diplomacia costuma ser a solução mais viável. No próximo dia 9, o desfazimento de uma das raras construções separatistas, que mudou a geopolítica internacional, completa 30 anos.

 

Passado tanto tempo deste episódio icônico, o que a queda do muro de Berlim, que um dia dividiu as Alemanhas Oriental e Ocidental, representou para a população do país unificado e para a conformação de forças hegemônicas no planeta?

 

Para dialogar com este e outros questionamentos, o Faixa Livre convidou o professor de Ciências Políticas do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Eduardo Martins, o docente de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) Daniel Aarão Reis e o professor de História e membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Hiran Roedel.

 

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Carlos Eduardo Martins

A edificação que separava os países simbolizava também a distinção de dois regimes distintos e característicos. O lado oeste experimentava a experiência capitalista, liderada pelos Estados Unidos, enquanto o leste era governado por um socialismo arraigado, dominante também na antiga União Soviética. A divisão do país se deu após a derrota alemã na Segunda Guerra Mundial, marcando o início da Guerra Fria.

 

Alguns especialistas consideram que o esfacelamento dos governos socialistas no continente europeu tenha sido o estopim para o mesmo movimento no berço da Revolução Russa, em 1917. Aarão não concorda com esta avaliação.

 

“A derrubada do muro até hoje é celebrada ou lamentada como um momento muito simbólico desse processo todo de desagregação do socialismo da Europa Central e da União Soviética. No entanto, há uma tendência das pessoas que pensam a História e também dos historiadores de fazer aquilo que a gente chama de História retrospectiva, de imaginar que as coisas que aconteceram teriam mesmo que acontecer. Nesse sentido, estabelece-se um nexo muito imediato e quase automático entre a desagregação do socialismo na Europa Central, assinalada simbolicamente pela derrubada do muro, e a desagregação do socialismo na União Soviética”, disse.

 

“A realidade é mais complexa e uma coisa não deveria ser considerada como causa eficiente do processo geral que houve na União Soviética. Claro que o muro só pôde ser construído com o aval, com o estímulo da União Soviética, e é claro também que a derrubada do muro teve uma repercussão grande na União Soviética, mas ela não estaria destinada necessariamente à desagregação. Temos de tomar certo cuidado na análise da queda do muro”, prosseguiu o professor.

 

A existência da construção dividindo a Alemanha pode ser comparada, na opinião de Roedel, com o período histórico da União Soviética onde havia certa alienação da população em relação às decisões políticas, sob o comando de Joseph Stalin.

 

“O muro de Berlim é perfeitamente de acordo com o modelo que vem a se configurar no stalinismo, ou seja, que vai para além da própria figura do Stalin. Esse modelo teve por característica a separação entre uma burocracia que tinha o controle de um aparato político e decisório, era um modelo com certas garantias sociais, um amparo social muito grande até porque ele se instala inicialmente em regiões extremamente pobres da Europa e da Ásia, onde qualquer iniciativa que você quisesse nesse sentido já era um grande avanço, mas em compensação há um distanciamento entre a burocracia dirigente e a população em si”, analisou.

 

O ideário socialista que se desenvolveu na Alemanha Oriental não foi originado a partir de um processo revolucionário, como se deu em outras partes do mundo. O docente do IRID destacou a forte influência dos soviéticos naquela região.

 

Hiran Roedel

Hiran Roedel

“A ocupação soviética da Alemanha vai se diferenciar da ocupação Ocidental no sentido de que a União Soviética vai impor à Alemanha Oriental pesadas reparações de guerra. E mais, havia uma forte preocupação de impedir que essa Alemanha Oriental ressurgisse como uma ameaça geopolítica para a União Soviética, então ela vai desindustrializar a Alemanha Oriental. Enquanto os aliados vão fazer uma política de desenvolvimento industrial na Alemanha Ocidental, a política stalinista é exatamente oposta na Alemanha Oriental”, lembrou.

 

“Há inicialmente uma enorme dificuldade do stalinismo em estabelecer uma relação positiva com essa sociedade que se quer dominar, isso provoca uma fuga em massa de habitantes. Até 1953, 1954, cerca de 2,3 milhões de habitantes deixaram a Alemanha Oriental, e o muro vem exatamente para impedir esse processo de saída dessa população para a Alemanha Ocidental”, descreveu Martins.

 

A ocupação de parte da Alemanha pela União Soviética se deu após o fracasso da proposta inicial da Revolução Russa em estabelecer um domínio territorial internacional, integrando, sobretudo, os Estados europeus.

 

Desta forma, o país permaneceu isolado no mundo, ainda que tivesse importância diante de seu vasto território, demograficamente ocupado, e a abundância de recursos naturais. A ascensão em outras nações do regime imposto pelos soviéticos se deu muito tempo depois.

 

“Isso vai estimular uma tendência dentro da União Soviética a aderir a essa proposta da chamada construção do socialismo em um só país. A ideia internacional não foi inteiramente abandonada, ao contrário, sempre se manteve, mas caberia à União Soviética aguentar o tranco sozinha e fazer o possível para se construir até que uma nova conjuntura possibilitasse a internacionalização do socialismo”, comentou o professor da UFF.

 

“Foi o que aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial. Os exércitos soviéticos ocuparam boa parte da chamada Europa Central e, na Ásia, através da revolução chinesa, das revoluções na Coréia e no Irã, e depois houve a revolução cubana, em 1959. Ou seja, você tem um processo de expansão muito significativo do socialismo. Essa história do socialismo em um só país depois da Segunda Guerra Mundial se reconfigura de maneira diferente”, continuou.

 

O avanço do comunismo após o final da segunda grande guerra se coloca em confluência a uma modificação no bloco de forças hegemônicas que se estabeleceu.

 

Daniel Aarão Reis

Daniel Aarão Reis

“Temos de levar em consideração também que, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, esse movimento comunista internacional liderado pela União Soviética se pauta na movimentação geopolítica, essa movimentação que prioriza áreas de influência em detrimento muitas vezes da discussão da luta de classes. Quando você faz essa movimentação, a visão da União Soviética, que é a visão até subalterna do que ela via nos países chamados periféricos, é que nem precisa se fazer a revolução, desde que esteja sob a minha aba”, observou Roedel.

 

Ainda que tenha havido uma reunificação física dos dois países, a derrubada da construção em Berlim foi incapaz de promover justiça social na Alemanha. Ao contrário, houve um aproveitamento da situação por parte das classes dominantes.

 

“A queda do muro não reintegrou efetivamente a Alemanha Oriental em um projeto de Estado nação consistente, e mais, a reintegração da Alemanha Oriental permitiu também à burguesia alemã conter fortemente os salários dos trabalhadores e usar a União Europeia, combinando a sua alta tecnologia com baixos salários, para quebrar a indústria dos países vizinhos na Europa. A Alemanha vai ter, por exemplo, a partir do Euro um saldo comercial dentro da União Europeia referente a 8% do PIB. Isso vai implicar na quebra de uma série de economias do Mediterrâneo como Itália, Grécia, Espanha”, avaliou o professor da UFRJ.

 

Ouça o debate na íntegra:

 

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