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Debate: Carnaval de protesto

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Palco das mais diversas e democráticas manifestações populares, o carnaval é sinônimo de alegria e celebração. No entanto, nos últimos anos, a diversão tem dado espaço à contestação. A precarização das condições de vida da população e a denúncia de governos autoritários e retrógrados tomam conta das ruas e das passarelas do país durante o período de folia momesca.

 

Em 2020, os protestos prometem se intensificar. Os desfiles das escolas de samba e dos blocos trazem enredos críticos às mazelas sociais e ironias às figuras que ponteiam os cargos da institucionalidade, em especial no Rio de Janeiro.

 

O Faixa Livre não ficou fora desse debate e convidou o músico baluarte da Unidos da Tijuca Marcos Esguleba, a compositora Manuela Oiticica, a Manu da Cuíca, o historiador e representante do bloco ‘Comuna que pariu’ Heitor Oliveira e o músico dos blocos ‘Ocupa Carnaval’ e ‘Nada deve parecer impossível de mudar’ Tomás Ramos para a discussão sobre o caráter ideológico do carnaval.

 

Tomás Ramos

Tomás Ramos

A sucessão de episódios que colocam em xeque a soberania do país e a dignidade da população preocupam a sociedade, mas encontra pouca resistência na iniciativa da política institucional. Os partidos de oposição seguem em compasso de espera pelas eleições e a extrema-direita, com apoio dos neoliberais, promove a entrega do Estado nacional e a pauperização dos estratos mais baixos da população.

 

O carnaval surge como uma expressão de denúncia, com protestos criativos e, na maioria das vezes, bem-humorados, reafirmando a ideia de que os espaços públicos pertencem aos moradores dos municípios.

 

“É um momento importante a gente refletir sobre o que está por vir nessa folia cada vez mais intensa e que, de certa forma, expressa muito os conflitos e contradições. A gente costuma dizer que a luta pelo direito à cidade tem no carnaval um de seus pilares importantes porque quando a gente ocupa a rua com folia, alegria, solidariedade é uma das formas que temos de lutar contra essa onda de ódio, intolerância e violência que cada vez mais toma conta do nosso país”, destacou Tomás.

 

O Rio de Janeiro é reconhecido como um dos celeiros da militância política no carnaval e não apenas nos blocos de rua. Os desfiles das escolas de samba, desde seu início, em meados do século passado, têm em sua história os questionamentos aos preconceitos identitários e à realidade escravocrata brasileira.

 

“Isso faz parte de uma longa tradição carioca que é um dos berços do samba. O samba não deixa de ser uma das formas mais interessantes que o brasileiro conseguiu desenvolver para juntar arte com política, para conseguir falar da realidade de forma crítica e, ao mesmo tempo, divertida, de conseguir, no sincopado do surdo de terceira, fazer as pessoas sambar falando sobre o que está acontecendo e tentando transformar a realidade”, citou o membro do Ocupa Carnaval.

 

Nos enredos das 13 agremiações fluminenses do Grupo Especial, pelo menos 10 incluíram nas letras apontamentos à realidade social. Entre os versos, se destacam “respeita o meu axé”, da Acadêmicos do Grande Rio, “tem marajá puxando férias em Bangu”, no samba da São Clemente, e “o Rio pede socorro”, que embala a Unidos da Tijuca.

 

Heitor Oliveira

Heitor Oliveira

Nascido no bairro da zona Norte do Rio, mas com iniciação no samba no subúrbio carioca, o Esguleba salientou a importância das composições para a coletividade, pontuando a urgência de temas essenciais à sobrevivência das pessoas.

 

“Os sambas-enredo são importantes para dar um alerta, para todo mundo pensar em tudo que está acontecendo. Tanta coisa vai passar naquela avenida, o nosso carnaval será uma surpresa porque não é um carnaval de muita luz, de brilho. O pessoal está procurando uma casa para morar”, alertou.

 

Conhecido por seu trabalho musical com nomes como Zeca Pagodinho, o sambista evocou a característica cidadã do ritmo que o acolheu e revelou que desenvolve trabalhos sociais na sua região de origem.

 

“Fiz uma oficina esse ano, teve muita gente que tinha sonho de tocar. Agora estou partindo para o Borel, vou fazer aula lá duas vezes por semana. Nasci no morro da Casa Branca e vou conversar para ver se tem um espaço lá para fazer meu trabalho musical também. Muitos dizem na Tijuca ‘quero ser igual ao senhor’, então levo o tantã para passar as coisas para eles”, afirmou.

 

Uma das autoras do histórico samba campeão do carnaval do ano passado pela Estação Primeira de Mangueira – “História pra ninar gente grande” – celebrado pela denúncia das injustiças do país e com referência à vereadora Marielle Franco, brutalmente assassinada em 2018, Manu da Cuíca repetiu a dose.

 

Ao lado de seu marido e parceiro de composição Luiz Carlos Máximo, ela venceu a disputa na Verde e Rosa e levará novamente seus versos à Marquês de Sapucaí. Um dos trechos do samba atual faz referência ao presidente da República Jair Bolsonaro, citando seu sobrenome: “Favela, pega a visão, não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão”. A autora constatou o avanço da tirania no país e explicou a inspiração para o samba:

 

“São muitos os Messias, tem muita gente que se autoproclama Salvador da Pátria e propõe saídas autoritárias, violentas, a opressão. O enredo da Mangueira vem falando de Cristo e sua vida é muito mais próxima de partilha, de tolerância e de amor do que de algumas soluções que são dadas inclusive em seu nome”.

 

Manu da Cuíca

Manu da Cuíca

Evangélico assumido, o ex-capitão do Exército vocifera um discurso bélico, indo de encontro aos preceitos religiosos. Não são raras as vezes em que o político faz uso de passagens bíblicas para justificar suas atitudes polêmicas. No último fim de semana, Bolsonaro esteve no evento de comemoração aos 40 anos da Igreja Internacional da Graça, do missionário RR Soares, no Rio, e afirmou que ‘o Brasil é laico, mas o presidente é cristão’.

 

“Prefiro dizer quanta gente abraça esse Jesus da gente. Tivemos a oportunidade de ver isso com o enredo, muitas pessoas se manifestando, reconhecendo sua fé nessa lógica de partilha e defendendo por se identificar, por pertencer. O acolhimento da comunidade da Mangueira foi total, as pessoas gostam e se identificam muito com esse enredo e esse samba. Temos de olhar para os nossos e ver quem está do nosso lado, são muitos. Esse Jesus da gente está falando mais alto do que outras formas de falsa salvação”, disse Manu.

 

Outra polêmica dos festejos em 2020 se dá quanto ao uso de fantasias que denotam diferentes culturas, como a indígena. No último final de semana, a atriz Alessandra Negrini recebeu críticas por usar adereços e pinturas tradicionais dos índios no pré-carnaval de São Paulo.

 

O membro do bloco ‘Comuna que pariu’, criado por integrantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), lamentou a postura da chamada ‘patrulha ideológica’ no carnaval, enaltecendo as homenagens aos nativos.

 

“Você não pode, em nome de um necessário debate, cercear manifestações. No caso dessa atriz, foi uma ação de apoio aos povos originários, tanto que teve o apoio da Pib, que é a associação de apoio aos povos indígenas brasileiros, inclusive falando que estavam junto com ela. De fato, há um debate que tem de ser feito e não podemos deixar de lado, que é justamente como evitar que em uma brincadeira ou em um ato de resistência se crie estereótipos em cima de características de pessoas”, destacou

 

Marcos Esguleba

Marcos Esguleba

“Se fantasiar de nordestino, por exemplo, evidencia, faz uma caracterização estereotipada do indivíduo que reproduz um conjunto de preconceitos sociais, históricos, raciais, regionais que estão muito presentes na sociedade brasileira. É necessário saber o tom, o que é resistência, o que é apoio, o que é demonstrar estar ao lado do que fazer um desrespeito com setores da população. É um debate que temos de ter certa cautela na maneira de conduzir para não suprir uma ditadura por outra na hora de organizar a brincadeira”, prosseguiu o historiador.

 

A radicalidade na repressão a fantasias carnavalescas foi destacada por Manu. Ela reafirmou a necessidade de ponderação e bom-senso entre aqueles que condenam e os que fazem uso dos adereços na folia.

 

“A gente tem de procurar um limite, o meio do caminho entre o que é compromisso e responsabilidade e o que é patrulhamento e censura. Dificilmente vamos achar uma frase que defina esse limite, que se aplica a todas as situações, mas acho que o ponto de partida é entender que, muitas vezes, é na piada que se legítima a opressão”, concluiu.

 

Ouça a íntegra do debate:

 

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