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Debate especial fim de ano: Internacional

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A elevação das tensões em busca da hegemonia internacional tanto na política, como no comércio, vem colocando frente a frente os até então insuperáveis Estados Unidos, com o nacionalismo de Donald Trump, e a China, potência oriental emergente que conta com a simpatia da Rússia. E qual é o papel do Brasil nesse novo cenário mundial que se desenha?

 

Para discutir o horizonte da política externa, o Faixa Livre convidou o professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) Bernardo Kocher, o cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Eduardo Martins e o professor de Relações Internacionais da UFF e da Uerj Williams Gonçalves.

 

Há anos o Brasil ocupa um papel de destaque na diplomacia internacional, com participação atuante na Organização das Nações Unidas (ONU), promovendo e mediando o diálogo entre nações em conflito e nas missões de paz com forças militares, destaque para o envio de tropas ao Haiti, em 2004, ao Líbano, em 2011, e ao Congo, que ainda permanece em atividade.

 

Williams Gonçalves

Williams Gonçalves

Entretanto, a eleição de Jair Bolsonaro e as primeiras declarações de sua equipe de governo colocam em risco as intervenções do Itamaraty em torno das relações diplomáticas com os principais atores internacionais.

 

“O Brasil é um eixo muito forte na construção desse ‘ethos’ de direita que surge no mundo e vamos padecer de uma orientação de política externa que já se anuncia. Mais de um século da política externa brasileira, que sempre buscava explorar as contradições do sistema internacional para buscar uma posição autônoma que nos trouxesse algum proveito, e agora pretende-se desmontar tudo isso para a aplicação de uma política externa apocalíptica”, comentou Bernardo Kocher.

 

Para comandar o Ministério das Relações Exteriores, o ex-capitão do Exército convidou Ernesto Araújo, diplomata que ocupa o posto de diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos no Itamaraty. O futuro ministro, indicado por Olavo de Carvalho, ganhou destaque por fazer campanha pró-Bolsonaro nas últimas eleições através de um blog com posições, digamos, controversas.

 

“O que vemos é uma crise política, mas não há resistência a esses insanos que tomaram o poder. Há uma despolitização, toda crítica é feita de forma emocional” – Bernardo Kocher

 

Afeito à teoria do terraplanismo, concepção que garante à Terra um formato plano, Araújo batizou seu projeto como ‘metapolítico’, que significa ‘abrir-se para a presença de Deus na política e na história. Além disso, ele garante que o país aderiu a um suposto ‘marxismo cultural’.

 

“Nosso futuro ministro de relações internacionais leva o fundamentalismo a níveis nunca alcançados na história. Há um artigo onde ele diz que Trump é um intérprete de Deus para salvar o ocidente de si mesmo. Que ocidente ele quer salvar? É o ocidente medieval, escravista, contra um ocidente que surge a partir da revolução francesa. Parece que o Pânico na TV  tomou o governo, estamos um uma situação tragicômica”, ironizou Carlos Eduardo Martins, em referência ao programa de humor da Band que não está mais no ar.

 

As declarações do próximo titular do Itamaraty sugerem um afastamento imediato de países com inclinações ao socialismo, como Cuba e Venezuela, que foram desconvidados da cerimônia de posse de Jair Bolsonaro. E este não é o primeiro conflito diplomático criado pelo governo que sequer tomou posse.

 

“Liderança nasce do projeto de promover, desenvolver e reduzir as desigualdades internacionais e o Brasil fazia isso naturalmente” – Williams Gonçalves

 

O próximo presidente já anunciou a intenção de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, acompanhando movimento iniciado pelos Estados Unidos e que contou com adesão apenas da Guatemala.

 

Carlos Eduardo Martins

Carlos Eduardo Martins

“Há de se distinguir o alinhamento automático aos Estados Unidos na época da Guerra Fria ao que se faz hoje, está se alinhando à extrema direita norte-americana. Essa decisão de se deslocar a embaixada em Israel é algo que nem o Estado de Israel pede, é uma ideia da extrema direita norte-americana que alimenta as igrejas evangélicas brasileiras”, alertou Wiliams Gonçalves.

 

A evocação de um aparente ideal de defesa dos interesses nacionais, presença constante nas entrevistas dos integrantes da gestão que se inicia em 2019, esbarra nas ações já anunciadas especialmente pela equipe que comandará a economia.

 

“Ouço aqui e ali pessoas falarem de nacionalismo e dizerem que Bolsonaro copia Trump. Isso não existe. Primeiro há de se distinguir patriotismo de nacionalismo. Patriotismo é um sentimento de amor à terra onde se nasceu e, como sentimento, há oscilação. Nacionalismo é ideologia política e Bolsonaro não é nacionalista. Ninguém pode ser nacionalista com o programa econômico de Paulo Guedes, é o oposto”, ressaltou o titular de Relações Internacionais da UERJ.

 

Outra medida divulgada é a de esvaziar o vínculo com o Mercosul, bloco que reúne, além do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – a Venezuela está suspensa. Vale destacar que a aproximação aos Estados Unidos afasta por consequência alguns dos maiores mercados brasileiros.

 

“A China é o principal parceiro comercial do Brasil, é quem alavanca o crescimento econômico no mundo enquanto os Estados Unidos patinam com taxas de crescimento declinantes. A China é quem tem projeto de um sul global, de uma nova rota da seda. Destruir o Mercosul é destruir nossa indústria, condenar o país ao mais absoluto rentismo. A carne brasileira tem mais inserção no mundo árabe. Quer brigar com o mundo árabe por quê? Quer colocar o Brasil dentro do circuito internacional terrorista?”, questionou Carlos Eduardo Martins.

 

“Há um nível de improviso grande no governo Bolsonaro porque é um grupo de aventureiros sem nenhuma experiência de gestão pública, que traz propostas com alto teor fundamentalista” – Carlos Eduardo Martins

 

O descolamento brasileiro de blocos econômicos durante a gestão de Bolsonaro se estende aos Brics. O grupo composto por Rússia, Índia, China e África do Sul atravessa um processo de desmantelamento por influência norte-americana, que teme pela hegemonia histórica frente ao avanço do seu antagonista oriental.

 

Bernardo Kocher

Bernardo Kocher

Para o professor de História Contemporânea da UFF, o tão propalado viés ideológico que o ex-deputado condena mostra-se latente nas decisões relativas ao rumo do país para os próximos quatro anos.

 

“O Brics era o embrião para se formar talvez um bloco econômico mais concreto. Esse governo, de forma intempestiva, decidiu romper, achou que era brincadeira, uma opção ideológica, e resolveu fazer a sua opção ideológica. Vivemos uma crise de paradigma e o diagnóstico feito é absolutamente precário. Os Estados Unidos querem subserviência conosco, não querem aliança”, comentou.

 

Em face ao desastroso cenário político-econômico que se avizinha, a esperança recai sobre a presença dos militares no governo. A formação ministerial anunciada por Bolsonaro conta com sete integrantes que fizeram carreira nas Forças Armadas.

 

“Os militares têm uma cultura institucional muito própria de ordem, organização, já governaram o Brasil, podem ser único setor a ser o contraponto desse governo. Os empresários serão desmantelados com o que está posto, os estados também, as universidades, o ministério das Relações Exteriores, o projeto é desmantelar, mas se ele fortalecer o poder militar, vai sair alguma coisa. A eleição desse novo presidente não era desejada por quase ninguém, ele se viabilizou eleitoralmente em um vácuo de poder e desgaste, pelos fatos e por uma campanha moralista”, destacou Bernardo Kocher.

 

Ouça o debate abaixo:

 

 

Debate em 20.12.2018

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