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Debate: Para onde caminha o Brasil?

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O estabelecimento de políticas de desmonte das principais garantias sociais para a população mais pobre no país pelo governo de Jair Bolsonaro aponta para um horizonte que alia a desesperança por uma mudança no panorama e o medo de que o avanço do neoliberalismo possa comprometer ainda mais as futuras gerações.

 

As reformas da Previdência e tributária, a ampliação do quadro de precarização do trabalho, a criação de artifícios que favorecem o capital financeiro travestidos de benefícios para o povo, o processo de privatização que reduz o tamanho do Estado, colocado pela administração federal como vilão das contas públicas estabelecem o panorama trágico proporcionado pelas eleições gerais do ano passado.

 

O programa Faixa Livre discutiu os rumos do Brasil com as presenças do professor de Filosofia Luiz Carlos de Oliveira e Silva, a articuladora nacional da rede Jubileu Sul e da coordenação rede Jubileu Sul Américas e vice-presidente do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS) Sandra Quintela, e o economista do PACS e do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental (FMCJS) Marcos Arruda.

 

Luiz Carlos de Oliveira e Silva

Os ataques às estruturas sociais se dão fundamentalmente pela retomada de protagonismo dos ideais capitalistas não apenas no Brasil, mas em toda América Latina, e coincidem com o aniversário de três décadas de um instrumento acordado pelo mercado financeiro para supostamente promover o ajustamento macroeconômico dos países em desenvolvimento.

 

“Em 2019 faz 30 anos do Consenso de Washington. A gente deixa de falar sobre isso, mas é importante pensar que esse modelo do chamado capitalismo neoliberal, nessa etapa do neoliberalismo que ganha um incremento terrível com o que se acordou chamar naquele momento esse pacote de medidas que vão desde a privatização das estatais, dos serviços públicos, a perda de direitos por parte dos trabalhadores e trabalhadoras, as políticas de ajuste fiscal, financeirização das nossas economias que vem muito fortemente nos anos 1980, mas se consolida com o consenso. Acho que nesses 30 anos, ele indica sinais muito claros de como não funciona, não atende às necessidades de vida das pessoas”, lembrou Sandra.

 

Pela análise de muitos especialistas, o sucesso de iniciativas da direita no continente sul-americano se dá pela necessidade de os Estados Unidos se afirmarem em sua histórica área de influência geopolítica, já que o país presidido por Donald Trump passou a disputar a hegemonia global com os chineses.

 

Os asiáticos, em aliança estratégica com a Rússia, por sua vez, atuam na região defendendo os interesses de nações que ainda estabelecem resistência ao imperialismo estadunidense, como o regime de Nicolás Maduro, na Venezuela.

 

“Estamos diante de um poder do capital que desconsidera totalmente o valor da vida humana e da vida do planeta. O admirável é como eles colocam seus interesses acima de tudo, qualquer coisa que acontece no planeta, eles dizem que é do interesse dos Estados Unidos, portanto têm direito a intervir”, disse Arruda.

 

“Com essa lógica, chegamos a uma situação terrível no mundo e principalmente na América Latina, o único instrumento de democracia que o povo ainda podia contar, no caso da ditadura do capital, eram as eleições, e agora as eleições também viraram um instrumento de manipulação através de fake news e de todos os esquemas eletrônicos de manipulação da opinião pública. Repara os governos eleitos do Lula, Evo Morales e outros em toda América Latina, era uma época ainda em que se podia eleger. Agora não há mais essa possibilidade”, continuou.

 

Sandra Quintela

No caso brasileiro, o ataque às estruturas democráticas não vem de hoje, datam desde o início da década de 1990, logo após as primeiras eleições diretas pós-ditadura militar. O professor de Filosofia classificou o momento atual como o de mais intenso temor na trajetória do país desde então. Nem mesmo a possibilidade do retorno do ex-presidente Lula à Presidência pode alterar este quadro.

 

“O Brasil está sob o maior ataque sofrido na nossa história republicana, é um ataque que tem em vista a remover todos aqueles pressupostos da construção de um país soberano que vinha sendo construído desde Vargas. É um ataque sistemático, consistente, inaugurado pelo Fernando Collor, que Fernando Henrique deu continuidade aprofundando, que no período Lula e Dilma, de certa maneira, ficou congelado. O Lula não se empenhou em fazer uma recuperação do terreno que tínhamos perdido e, ao não fazer isso, acabou naturalizando um estado de coisas, produzindo um consenso que até então não existia”, destacou.

 

“Se a esquerda toma o governo e não desconstrói o que tinham sido os governos Fernando Henrique e Collor, ele naturaliza a situação, produz e impõe consenso artificial à nação, e uma possível volta de Lula ao governo vai naturalizar o estado de coisas que a gente se encontra”, projetou Luiz Carlos.

 

A atuação dos partidos de esquerda no processo político do país, aliás, foi contestada pelos integrantes do debate. O diagnóstico da necessidade de uma reconstrução do campo progressista se fez uníssono.

 

A condição de nação periférica e ex-colônia, ainda atendendo às demandas do capital estrangeiro – leia-se Estados Unidos – se contradiz à posição privilegiada do Brasil entre as maiores economias do mundo. Para a superação deste quadro de subserviência, a vice-presidente do PACS se mira na experiência de estratos da sociedade que sofreram e ainda sofrem com o preconceito.

 

Marcos Arruda

Marcos Arruda

“Não temos como reescrever a história ou reconstruir a esquerda sem olhar, por exemplo, para esses setores que historicamente resistiram o tempo todo no Brasil, as populações negras, as mulheres, as populações indígenas, como se mantiveram vivos nos seus territórios ao longo desse processo histórico de 500 anos. Temos de aprender com esse povo, se abrir à construção de uma igualdade substantiva porque nossa esquerda tem a tradição de olhar o Brasil a partir de um eurocentrismo. A primeira coisa é pensar a partir da nossa ancestralidade, da nossa história”, avaliou

 

Dentre os dilemas que se colocam para o PT e seus aliados no embate eleitoral às forças do neoliberalismo está a tão falada e indispensável autocrítica em relação aos malfeitos cometidos nos 13 anos em que a legenda esteve no comando do Executivo. Lula, em declaração recente, chegou a negar a possibilidade de reconhecer os erros de sua gestão. Em um momento anterior, o ex-presidente admitiu até que não é um político de esquerda.

 

“Lula e Dilma foram paradigmas de promessas não cumpridas, de estelionato eleitoral. A esquerda renunciou com Lula a um projeto realmente transformador e ele teve a fineza de desarticular o movimento popular, que estava organizado atrelando tudo isso ao seu governo: ‘deixa que o Lula faz porque ele agora está no poder’”, criticou Arruda.

 

Ouça o debate na íntegra:

 

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