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Debate: Quais os rumos da economia?

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Não é de hoje que a economia mundial vem dando sinais de desaceleração. O fechamento de fronteiras comerciais, como a saída do Reino Unido da União Europeia, formalizada oficialmente nesta quinta-feira (31), e as disputas tarifárias entre Estados Unidos e China são mostras dessa derrocada. Os analistas de mercado apontam para a possibilidade de estouro de uma nova bolha financeira ainda em 2020.

 

Como agravante, a epidemia de coronavírus no país asiático tende a afetar fortemente o crescimento chinês, uma das locomotivas da economia no planeta. O Brasil, por sua vez, é uma das nações diretamente afetadas por esse movimento de retração, visto que a China é o nosso principal parceiro comercial.

 

José Luís Fevereiro

José Luís Fevereiro

Para discutir os rumos da economia com o cenário posto desde o início do ano, o Faixa Livre convidou o economista e membro do Diretório Nacional do PSOL José Luís Fevereiro, o professor de Desenvolvimento Econômico da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) e diretor de Projetos do Instituto de Brasilidade Patrick Fontaine e o presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Nildo Ouriques.

 

A nova modalidade de gripe que vem provocando dezenas de mortes na cidade de Wuhan, que fica na província chinesa de Hubei, nas últimas semanas e motivou o anúncio, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de emergência de saúde internacional levou medo não apenas às autoridades sanitárias, como também aos especialistas em economia ao redor do mundo.

 

Os investidores preveem impacto no mercado internacional, com uma queda na demanda chinesa por produtos e serviços. O Brasil já acendeu o sinal de alerta para uma provável inflexão negativa do seu Produto Interno Bruto a reboque da diminuição no volume de exportações.

 

“O coronavírus é de fato um problema não por conta da contaminação da população brasileira nesse momento, mas é um problema de ordem econômica porque vai ter um impacto significativo na economia chinesa. Esse ano mesmo a economia chinesa já deve apresentar uma desaceleração forte nas suas taxas de crescimento e certamente vai afetar a economia brasileira”, comentou Patrick.

 

“A China é nosso principal parceiro comercial já há algum tempo, a tendência é que nossas exportações sejam reduzidas para aquele país e isso vai ter um impacto significativo na nossa economia que está cada vez mais sinalizando um problema nas suas contas externas. Essa redução das exportações para o nosso principal parceiro comercial tende a se apresentar como um problema para o nosso balanço de pagamentos caso a gente venha eventualmente a começar a crescer em um ritmo mais acelerado”, prosseguiu.

 

A ocorrência de episódios epidêmicos similares neste século foi mencionada por Fevereiro para apontar os possíveis efeitos do novo coronavírus para a economia. A ampliação do déficit corrente brasileiro, cada dia mais dependente da exportação de commodities e importação de bens manufaturados, também foi citada pelo militante psolista.

 

Nildo Ouriques

Nildo Ouriques

“Se [o coronavírus] for semelhante à Sars ou ao H1N1, tem um impacto no curto prazo que tende se diluir no médio prazo, se ficar do tamanho que ficaram aquelas duas epidemias. Com relação ao nosso déficit em conta corrente, acho que a aposta que o governo faz é bastante preocupante porque como a produção do petróleo tem aumentado muito a partir de reservas constituídas há cinco, seis anos, investimentos que entram em maturação agora, a tendência é que as exportações brasileiras de petróleo aumentem e isso deu um fôlego para essa política de destruição da indústria brasileira”, avaliou.

 

“É possível que esse problema venha a acontecer, mas somente daqui a sete ou oito anos, o que é mais grave porque quanto mais rápido o problema se materializar, mais rápida terá de ser feita a correção de rumos e eu acho que o governo aposta que vai compensar isso com as exportações de petróleo, complexo agroindustrial e que, portanto, isso não é um problema. Na cabeça dos liberais, o raciocínio é mais ou menos esse”, continuou o economista.

 

O debate a respeito de uma redução no crescimento dos asiáticos não é de hoje. O desempenho avassalador recente da economia chinesa, com altas no Produto Interno Bruto que ultrapassavam os 10% anuais, combinado a uma perda de ganhos no país norte-americano fez com que a hegemonia estadunidense sofresse um abalo.

 

Não por acaso Donald Trump adotou medidas protecionistas para frear a ascensão do gigante liderado por Xi Jinping. Contudo, um debacle chinês, conforme lembrou Nildo, tende a afetar as balanças comerciais em todo mundo. A estabilidade do dólar diante de moedas de países periféricos, como o Brasil, diminuiria o impacto das perdas nos Estados Unidos.

 

“Existe nos Estados Unidos e na Europa uma discussão séria sobre a desaceleração na China e a crise nos Estados Unidos, a despeito da taxa baixíssima de desemprego e um ensaio de recuperação da economia estadunidense, mas o quadro, antes de qualquer epidemia, é muito preocupante, e a forma com que o governo dos Estados Unidos tenta lidar é naturalmente multiplicando o déficit. Ninguém pode esquecer que Trump se elegeu com a ideia de que em um curto espaço de tempo reduziria o déficit público nos Estados Unidos, que alcança quase 5% do PIB, uma cifra de US$ 13 trilhões para os próximos 10 anos. Um país que tem soberania monetária pode fazer isso, não é o nosso caso”, considerou.

 

A instabilidade do Real é outro fator que amplia a dependência brasileira das exportações, modelo econômico adotado há pelo menos 25 anos e que passou pelas diferentes matizes ideológicas que ocuparam o Palácio do Planalto.

 

“Para conseguir o dólar, temos de fazer essa política da economia exportadora que sempre foi a nota dominante, passou por [Fernando Henrique] Cardoso, Lula, Dilma, Temer e com Paulo Guedes é que estão fazendo de maneira mais acelerada. Nesse contexto, não há nenhuma diferença entre a administração ‘petucana’ no Plano Real, Temer e Bolsonaro, exceto o ritmo da transformação”, avaliou o docente da UFSC.

Patrick Fontaine

Patrick Fontaine

 

A perda da soberania nacional passa não apenas pelo aspecto monetário. A coalisão que elegeu o ex-capitão do Exército para a Presidência segue em sua plataforma de desmonte do Estado e precarização das relações de trabalho. O presidente do IELA citou uma estatística apontando que o desemprego no campo não afetou a lucratividade dos grandes latifundiários.

 

“O Paulo Guedes representa uma coesão burguesa hoje no Brasil que envolve a fração residual da burguesia industrial, a fração agrária. Do ponto de vista capitalista, a agricultura brasileira funciona maravilhosamente bem, isso não quer dizer para a pequena agricultura familiar, para os sem-terra, mas o dado é eloquente. De 2012 a 2019, quase 2 milhões de vagas foram fechadas no campo, a produtividade aumentou e a concentração da terra segue evoluindo. A burguesia do Paulo Guedes e do governo protofascista do Bolsonaro vai aprofundar e colocar a crise a favor de um assalto ao Estado muito maior, que envolve a venda das estatais, a desvinculação completa das receitas da União e um arrocho sobre o setor público violentíssimo”, argumentou Nildo.

 

Ouça o debate na íntegra:

 

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