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Debates especiais de fim de ano: Agricultura

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Os ataques da gestão de Jair Bolsonaro aos diferentes setores da sociedade tiveram o campo como um de seus alvos preferenciais. O incentivo ao agronegócio, facilitando o acesso e o desmate de áreas verdes, o fomento à posse de armas de fogo aos grandes latifundiários, a liberação de venenos que, ao mesmo tempo em que ampliam a produção, afetam a saúde das pessoas, a destruição das políticas de agricultura familiar e a ameaça às demarcações de terras deram a tônica no primeiro ano de gestão do ex-capitão do Exército.

 

A ofensiva se estendeu às entidades de defesa dos direitos dos trabalhadores do campo. Além de se virem desprestigiadas pelo novo governo, elas foram vítimas da verborragia e das ações do presidente. Um dos exemplos foi a comemoração de Bolsonaro à diminuição do número de invasões de propriedades rurais pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no país desde 1995 ou a ameaça de cortes de verbas para as escolas mantidas pela organização.

 

Jean Marc Von Der Weid

Jean Marc Von Der Weid

Para debater os problemas enfrentados pela agricultura e a luta no campo em 2019, o Faixa Livre convidou o coordenador nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) Iury Paulino, o especialista em agricultura Jean Marc Von Der Weid e o membro da direção nacional do MST Joaquín Piñero.

 

As medidas da atual gestão federal contra os pequenos produtores rurais foram múltiplas, tanto que a reação ao quadro estabelecido tornou-se difícil por parte daqueles que historicamente lutam pela divisão igualitária das terras agricultáveis.

 

“Findando um ano de governo Bolsonaro, agora pelo menos a gente tem mais ou menos algumas indicações através da sua ação prática no campo do que, de fato, está sendo. Para nós é muito preocupante. Os impactos diretos na vida do povo trabalhador do campo têm sido desastrosos quando a gente analisa um conjunto de medidas que estão sendo tomadas por esse governo e isso tem a ver com o fortalecimento do chamado agronegócio”, afirmou Piñera.

 

A afirmação dos grandes empresários, que alguns denominam latifúndio produtivo, na administração de Jair Bolsonaro se deu após o patrocínio deste setor à campanha eleitoral do político antes do PSL, agora sem partido. A promessa de favorecimento e fomento à produção agrícola para venda aos mercados internacionais seduziu os agentes.

 

“Se pegarmos os 10 maiores produtos de exportações do nosso país, pelo menos sete são das chamadas commodities agrícolas e minerais. Isso também revela que somos um país altamente dependente desse setor primário e não é à toa que estamos enfrentando uma crise da alta do preço da carne porque esse setor é construído exatamente para a exportação e, por outro lado, os pequenos e médios produtores, que são os grandes responsáveis por colocar comida na mesa do trabalhador brasileiro, estão sendo penalizados pela política perversa desse governo”, prosseguiu o dirigente do MST.

 

Uma das atitudes do presidente no sentido de transformar terras improdutivas em regiões próprias para a agricultura foi a liberação recorde de agrotóxicos, que chegou a 467 autorizações desde o início do ano. A tragédia só não foi maior porque a Justiça Federal do Ceará suspendeu a permissão a 63 pesticidas. Além disso, os empresários utilizam as terras atualmente para outra finalidade bastante lucrativa.

 

“Você consolida um modelo de produção que não permite fazer com que o país tenha avanços do ponto de vista da qualidade de vida da sua população. Ele é cada vez mais baseado em uma produção que não produz alimentos, você produz mercadoria no campo e essa reflexão a gente também traz do ponto de vista da análise da própria produção de energia. Hoje, o campo não é somente utilizado na produção agrícola, mas para produzir energia dentro da mesma lógica de um modelo em que a riqueza não fica com o povo, e não há um tratamento social e ambiental adequado para quem é afetado”, relatou Paulino.

 

Joaquín Piñero

Joaquín Piñero

“Para produzir alimentos, tem de se ver qual é o sistema agroalimentar que está posto em prática no país e esse sistema não tem como objeto principal, nem essencial, alimentar a população. Ele está feito para produzir lucro no sistema capitalista. Isso é feito de uma forma particularmente nociva no caso da agricultura porque há parques ambientais enormes que esse sistema tem com a destruição do solo, da biodiversidade, da cobertura vegetal, com impactos climáticos muito significativos. Não podemos esquecer que a agricultura, a cadeia alimentar representa quase 50% de todas as emissões de gases de efeito estufa no mundo”, completou Jean Marc.

 

Uma das consequências do privilégio destinado ao agronegócio no país se dá no número de famílias que cultivam alimentos. Desde 2006, houve uma perda de 380 mil agricultores familiares, conforme dados levantados pelo Censo Agropecuário 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mesmo com o investimento no setor nas administrações petistas.

 

“Com toda a política dos governos Lula e Dilma para apoiar a agricultura familiar, perdemos agricultores. Tem alguma coisa errada nessa política. Por melhor que sejam as intenções, o resultado não foi bom e uma das coisas essenciais que a gente não conseguiu mexer foi a política de créditos”, avaliou o especialista em agricultura.

 

Uma das críticas às gestões de esquerda no Palácio do Planalto foi a falta de uma reforma agrária ampla, que atendesse às necessidades de todos os trabalhadores sem terra no Brasil, desapropriando terrenos sem utilização de grandes latifundiários.

 

Atualmente essa realidade parece ainda mais distante. Jair Bolsonaro nomeou como secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura Luiz Antonio Nabhan Garcia, responsável pela demarcação de terras. O dirigente é um conhecido fazendeiro da região do Pontal do Paranapanema e presidente da União Democrática Ruralista (UDR).

 

“Hoje esse quadrilheiro está como secretário, só para a gente entender o nível que é esse governo. Isso faz com que a ofensiva desse setor aos sem-terra, a todos os movimentos de luta pela terra, indígenas, Quilombolas, dos ambientalistas, ONG’s aumente”, denunciou o membro do MST.

 

Iury Paulino

Iury Paulino

Das recentes iniciativas implementadas pela gestão Bolsonaro contra os trabalhadores rurais, destaca-se o processo de reintegração de posse de áreas ocupadas há mais de 10 anos em todo o país.

 

“Em Macaé, um dos nossos maiores assentamentos, uma das nossas experiências de produção de feijão orgânico está sob esse ataque do governo. Ontem à noite, em Minas Gerais, a polícia cercou um acampamento durante 24 horas ameaçando as famílias com tiros. Na região da Bahia, no perímetro irrigado, várias áreas de assentamento que tínhamos com muita produção foram completamente reintegradas, as famílias despejadas, todas as casas e plantações destruídas É um processo de terror que estamos vivendo no campo por parte desse governo”, lamentou Piñero.

 

Para a superação deste cenário, o coordenador do MAB destacou a necessidade de se democratizar a informação no país e organizar a comunicação das entidades que defendem os trabalhadores rurais com apoio de diferentes setores da sociedade civil.

 

“É um momento muito difícil, que precisamos de certa forma nos reinventar enquanto proposta de movimentos populares para que a gente possa superar esse ataque. Temos de reconhecer que o ataque é muito violento porque ele é desonesto, não traz a verdade e chega de uma forma que é fácil da população assimilar, então nos coloca em uma correlação de forças que é desfavorável a nós que fazemos oposição a esse projeto”, pontuou Iury.

 

Ouça o debate na íntegra:

 

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