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Debates especiais de fim de ano: Mulheres

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A construção das sociedades ao longo do tempo se deu em torno do patriarcado. A condição de subalternidade das mulheres diante da figura masculina tornou-se evidente não apenas no seio familiar e no mercado de trabalho, mas na vertente acadêmica e em quase todos os espaços onde há relações de poder, potencializado pelo modelo capitalista dominante.

 

No último século, o feminismo tem desempenhado o papel de tentar minimizar o preconceito histórico de gênero e estabelecer uma convivência equilibrada. No entanto, a discriminação ainda é evidente no dia-a-dia e a violência, física e verbal, é um de seus retratos mais cruéis. Qual é a função da luta das mulheres em um momento de acirramento das disputas, em especial, no campo profissional, e de exacerbação da agressividade?

 

Virgínia Fontes

Virgínia Fontes

Para dialogar sobre esses e outros temas, o programa Faixa Livre convidou a articuladora nacional e coordenadora da rede Jubileu Sul e vice-presidente do PACS Sandra Quintela, a professora de violino e militante da Revolução Brasileira do PSOL Priscila Alencastre e a professora de História do curso de pós-graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Escola Politécnica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Virgínia Fontes.

 

A caracterização do panorama expõe uma realidade alarmante: o aumento do número de episódios de violência contra a mulher e que se iniciam desde a infância. De acordo com dados do anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 52,8% dos estupros cometidos contra mulheres entre 2017 e 2018 tiveram como vítimas meninas de até 13 anos.

 

Isso representa que quatro garotas são abusadas sexualmente por hora no país. As mulheres também são alvo em 81,8% dos casos de estupro, o que demonstra a imposição da força e a manutenção do caráter machista da sociedade em geral e da institucionalidade, ainda que as organizações de mulheres que denunciam essa lógica venham crescendo.

 

“Estamos vivendo um quadro dramático e bizarro. O movimento de mulheres no mundo inteiro tem saído às ruas e se manifestado de forma bastante criativa. As mulheres do Chile iniciaram e virou uma onda no mundo inteiro, fazendo a denúncia muito forte com relação ao patriarcado, a violência do Estado sobre as mulheres. O problema que vivemos hoje é que a violência contra as mulheres também cresceu de maneira assustadora. Essa violência estrutural que o Brasil vive se expressa e o corpo das mulheres historicamente é o território de expressão dessa violência”, apontou Sandra.

 

“Nas guerras, os corpos das mulheres são território de disputa e, nesse processo que estamos vivendo, esses corpos estão sofrendo não só a violência dos seus companheiros, mas também a violência psicológica, de ver toda uma estrutura do Estado com creche, asilo ser absolutamente desmontada. Na medida em que você tem um hospital que não funciona, isso penaliza toda a população, mas em particular as mulheres porque se algum familiar adoece, quem vai para o hospital levar e acompanhar são as mulheres”, lembrou.

 

Um dos principais motivos para o crescimento da brutalidade, na opinião de Virgínia Fontes, é a imposição do capital diante da realidade de vida das pessoas, processo que sofreu alterações no decorrer das épocas.

 

Priscila Alencastre

Priscila Alencastre

“A violência sobre as mulheres não tem nenhuma razão natural na existência, embora decorra, a meu juízo, especificamente da expansão do capitalismo contemporâneo que altera completamente as relações da família tradicional, coloca as mulheres no lugar da reprodução. É uma coisa diferente do que acontecia na Idade Média porque as mulheres participavam muito mais dos processos produtivos e, de certa maneira, tendeu a isolar as mulheres sempre fazendo uma tensão, uma vez que elas estavam sempre presentes também como mão de obra”, relatou

 

“É uma análise interessante porque a expansão fabril é a expulsão de homens fortes por serviços sociais mais frágeis, mulheres e crianças, é a máquina substituindo a força física e, ao mesmo tempo, mantendo as mulheres no lugar do cuidado e da reprodução. É uma situação tensa desde as origens do capitalismo“, prosseguiu a historiadora.

 

A divisão sexual do trabalho imposta pelas estruturas de mercado e a precarização das condições de vida das populações penaliza duplamente as mulheres, que se vêem obrigadas a trabalhar para garantir o sustento dos familiares e mantêm o cuidado com os trabalhos domésticos.

 

Em uma década e meia, o número de famílias chefiadas por mulheres mais que dobrou no Brasil, conforme estudo dos demógrafos Suzana Cavenaghi e José Eustáquio Diniz Alves, coordenado pela Escola Nacional de Seguros. Os lares liderados por elas passaram de 14,1 milhões, em 2001, para 28,9 milhões, em 2015, o que corresponde a um avanço de 105%.

 

“O que vem acontecendo, principalmente a partir do século XX, é a expansão crescente e a necessidade da entrada das jovens no mercado de trabalho sob qualquer formato. No caso brasileiro, a gente vê isso bem a partir dos anos 1970, quando as mulheres entram massivamente no mercado e aquelas que não trabalham fora de casa, estarão trabalhando não só nos cuidados da própria família, mas das crianças das mulheres que estão nos empregos. Dobra a carga porque ela faz o trabalho fora de casa e o doméstico, é o mais conhecido da dupla jornada, e esse processo continua. A demanda e a reivindicação de igualdade das mulheres é um dos pontos limites do capitalismo”, citou a docente.

 

A abordagem da discussão a partir de marcos teóricos e políticos foi trazida pela militante da corrente psolista da Revolução Brasileira. Para Priscila, a análise baseada no diagnóstico da crise que o país enfrenta é essencial.

 

Sandra Quintela

Sandra Quintela

Dentre os pontos elencados pela violinista estão a necessidade da retomada de uma perspectiva e de referências críticas na política, a inclusão da classe trabalhadora como sujeito político e a centralidade do trabalho, as críticas da teoria da pós-modernidade – as política identitárias e da representatividade -, o sentido fragmentário do entendimento da condição da mulher, a ruptura com o liberalismo de esquerda e a afirmação da necessidade da revolução social como o único caminho para a luta das mulheres.

 

“Essas premissas me levaram a avançar nessa crítica, o entendimento do que é o feminismo. Não é nenhuma novidade o que estou trazendo, tem muito a ver com a retomada do que era a posição de mulheres que se engajaram em revoluções sociais nos seus países, as russas, as cubanas. Há a necessidade de uma diferenciação do movimento feminista. Entendo o feminismo como uma tentativa vã de equiparar homens e mulheres diante do Estado e da cultura, sem pleitear uma ruptura com o ordenamento das classes sociais e do sistema de propriedade”, destacou.

 

“Mesmo quando ele se apresenta de forma muito radical, quando reivindica um anticapitalismo, mas é porque ele desloca o eixo para a proposição homem e mulher. Mesmo quando o movimento feminista se apropria de algumas discussões, do marxismo, mas quando traz para o feminismo, coloca uma lente de aumento na questão da opressão da mulher que é real, mas focaliza naquilo e aparta, de forma fragmentária, o entendimento dessa opressão do local onde ocorre, que é a totalidade dos processos. Não tem como a mulher ficar presa na sua própria condição, nas suas próprias causas”, concluiu Priscila.

 

Ouça o debate na íntegra:

 

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