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Editorial – 12.05.2020

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Nós temos discutido aqui nesse espaço editorial nos últimos tempos as inúmeras iniciativas criminosas do presidente Jair Bolsonaro que dizem respeito não apenas as que se restringem ao campo da retórica, como a sua negação da gravidade da pandemia do novo coronavírus ou as declarações atentatórias ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso Nacional, mas sua tentativa de interferir em órgãos de Estado como a Polícia Federal para proteger os seus.

 

À esteira desse debate, destacamos diariamente o fato de a esquerda ter um papel coadjuvante em um momento que exige atuação firme das forças democráticas acima de qualquer interesse político-partidário. A respeito disso, eu gostaria de ler para os ouvintes a coluna do jornalista Ricardo Kostcho publicada no último domingo pelo portal UOL, onde ele realça a fragilidade da atual gestão federal e de seus opositores, que levam o país para o caos absoluto. O título da coluna é “Sem governo e sem oposição, o Brasil vai morrendo aos poucos, cada dia mais”. Diz o jornalista:

 

Estava pensando em escrever esta coluna de domingo com um balanço da pior semana que vivemos desde a posse de Bolsonaro, há exatos 495 dias, que já parecem uma eternidade.

 

Foi a semana em que o Brasil superou a marca de 10 mil pessoas mortas na pandemia e o presidente afrontou as instituições, completamente alheio ao drama que o país está vivendo, só pensando em fazer churrasco no Alvorada e passear de jet ski no lago Paranoá, como se estivesse de férias.

 

Ao navegar no noticiário dos portais fiquei ainda mais preocupado e desesperançado. Ainda não chegamos ao fundo do poço, tudo pode sempre piorar. Não há risco de melhorar.

 

Leio na manchete do Globo: “Mortes por coronavírus podem dobrar em 20 dias sem medidas de contenção, diz USP”.

 

Segundo o jornal, “simulações feitas por um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo voltado para identificar quando o país atingirá o pico de infecções apontam que o número de mortes poderá dobrar nos próximos 20 dias e o de infectados alcançar cerca de 400 mil até o dia 5 de junho, caso não sejam tomadas medidas de contenção da transmissão do vírus”.

 

Quem vai tomar essas medidas?

 

Em lugar de medidas de contenção, Bolsonaro prega exatamente o contrário, quer o fim do isolamento social e a volta à “normalidade” na sua cruzada insana e suicida, em que é seguido por grande parte da população.

 

Se depender desse governo, as mortes pela pandemia e os casos de contaminação vão continuar se multiplicando, sem que haja um plano nacional de emergência para deter o avanço da Covid-19 em todas as regiões do país.

 

Nos outros países, há um intenso debate entre os governos e os líderes da oposição para discutir quais as medidas de contenção necessárias e as melhores formas de sair do isolamento social.

 

Pois aqui não temos nem governo nem oposição, não há nenhum debate, esta é a dura realidade.

 

Não há planos oficiais nem alternativos, nenhuma coordenação para implantar medidas urgentes. Cada governador ou prefeito age por conta própria e a população está completamente perdida sobre o que pode ou não fazer para não se contaminar.

 

Agora todo mundo tem que andar de máscara, além de lavar as mãos, tudo bem, mas será que só isso pode impedir que os hospitais fiquem cada vez mais superlotados, com milhares de pessoas nos corredores à espera de uma vaga na UTI?

 

Até o papa Francisco ligou no sábado para saber o que está acontecendo com os pobres em São Paulo e ouviu do arcebispo d. Odylo Sherer que “está tudo bem”, tudo sob controle.

 

A fala mansa do cardeal para acalmar o papa é um retrato da omissão das lideranças da sociedade civil neste momento grave vivido pelo país. Até agora, nem tinha ouvido falar dele.

 

Na época da ditadura militar, foram as posições firmes de outro cardeal de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, que impediram mais e maiores atrocidades contra os presos políticos, denunciadas no livro “Brasil Nunca Mais”, do qual eu participei.

 

Junto com os líderes da oposição partidária, os presidentes da CNBB, da OAB e da ABI formaram a linha de frente na resistência e na luta pela redemocratização do país, mas hoje não temos nada disso.

 

Cadê todo mundo? Não basta só fazer notas de repúdio, videoconferências, dar entrevistas para a imprensa estrangeira e publicar tuítes nas redes sociais esculhambando Bolsonaro e seu governo.

 

Quais são os líderes da oposição hoje em atividade, quais são suas propostas alternativas para enfrentar essa tragédia?

 

Por onde andam as lideranças dos movimentos sociais e populares para pressionar o governo e o Congresso a sair da inércia e cuidar dos que mais estão sofrendo nesta pandemia?

 

Só na última semana, o fantasma que colocaram no Ministério da Saúde se dignou a visitar alguns hospitais, mas o presidente da República e representantes dos outros poderes nem isso fizeram até agora (Bolsonaro só foi duas vezes visitar o Hospital das Forças Armadas em Brasília).

 

É incrível que só vejamos manifestações a favor do governo e contra a democracia, sem que haja uma mobilização popular capaz de deter a marcha da insensatez deste governo paranoico-miliciano-militar.

 

Todos sabemos as limitações impostas pela quarentena a que metade do país ainda está submetida, mas vamos esperar vacinas ou remédios para acabar com a pandemia, e só depois dizer o que poderia ou deveria ter sido feito para evitar a escalada das mortes?

 

Seis meses após ter saído da prisão, lamento dizer, até agora o ex-presidente Lula ainda não reassumiu seu antigo papel de liderança, nem mesmo do PT, para formar uma frente de oposição com os outros partidos de esquerda e centro-esquerda, as centrais sindicais, os movimentos populares e a sociedade civil organizada. Em 1984, esse líder foi Ulysses Guimarães.

 

Agora sai cada um atirando para seu lado, batendo cabeça, sem clareza de objetivos, nem rumo definido sobre o que fazer para se opor a esse governo que promove a maior destruição da história republicana.

 

Não há nenhum sinal de ação concreta, enquanto Bolsonaro segue impunemente rumo ao autogolpe, cada vez mais evidente, com a complacência dos militares de pijama, que não querem perder as boquinhas no governo.

 

Sem governo e sem oposição, o Brasil vai morrendo aos poucos, cada dia mais, sem vela nem velório, sem dó nem piedade.

 

Assistimos bestificados ao massacre de vidas e esperanças, à espera de um milagre qualquer que nos faça acordar e cair na realidade.

 

Acreditar em quem? Em quê? De que jeito?

 

Vida que segue”.

 

Ouça o comentário de Anderson Gomes:

 

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