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O coronavírus e a crise econômica

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Por Marcelo Carcanholo*

 

O momento econômico pelo qual passa a economia mundial nesse exato momento é extremamente complicado. Vários analistas já afirmam até com provas de dados estatísticos bastante robustos que se trata de uma profunda recessão mundial, uma das maiores pelas quais a economia capitalista já passou, atingindo todas as partes do globo, Europa, Estados Unidos, economias dependentes, periféricas, Ásia. Alguns analistas inclusive já estão estimando que a recessão, a taxa de crescimento da economia, por exemplo, para a economia americana neste ano de 2020 será negativa em dois dígitos.

 

Portanto, o indicativo de que se trata de uma profunda recessão de fato, o que implica uma redução do nível de atividade econômica com redução de empregos, renda, aumento do desemprego com consequências sociais que podem levar, em algumas situações e regiões, a um verdadeiro caos. Acho que a primeira coisa a respeito da situação econômica de profunda recessão que temos de lembrar é que o coronavírus não é propriamente a causa dessa crise.

 

Evidentemente ela estoura a partir da Covid-19, do aparecimento do novo coronavírus, mas por uma razão muito simples: antes do estouro dessa pandemia, a economia mundial já estava em uma sinuca de bico em função de que estava super acumulada em títulos financeiros com uma produção real da economia que não acompanhava esses direitos e apropriação representados por esses títulos, ou seja, o chamado estouro da bolha financeira já era esperado há algum tempo.

 

Por onde iria estourar e qual seria o fator detonador é uma questão secundária. O que vemos agora é que esse fator detonador foi justamente a pandemia da Covid-19, mas ela não é propriamente a causa da crise econômica. Fato é que uma vez estourada essa crise, em função disso, aprofunda a recessão mundial que já se antevia há alguns anos, começa a se confirmar neste quadro. Algumas instituições, especificamente o FMI, mas não apenas, estão prevendo uma recuperação da economia mundial apenas para o ano de que vem se, e somente se, a pandemia for controlada ou existir algum sucesso no seu controle nos próximos seis meses, ou seja, o próprio FMI reconhece que se ocorrer algum tipo de descontrole na pandemia nesse momento, de meados de 2020, nem em 2021 a economia mundial se recuperaria.

 

Essa análise do FMI é extremamente otimista, digamos assim, porque vários outros analistas veem que, por melhor que seja o controle dessa pandemia, mesmo em 2021 a economia mundial ainda vai ter sérios problemas para se recuperar, isso basicamente pela razão que detona a crise, ou seja, o forte acúmulo de títulos financeiros, direitos de apropriação sobre uma produção que, mesmo que volte a crescer em algum patamar a partir de 2021, ainda não fará no percentual as taxas requeridas para fazer frente a esse direito de apropriação dos títulos financeiros.

 

Ou seja, para que isso fosse possível, uma retomada consistente da economia mundial em 2021, seria necessário, por um lado, que a produção voltasse a níveis que já não vemos há muitos anos, pelo menos desde antes do estouro da crise de 2007 e 2008, e, ao mesmo tempo, uma massa desses títulos financeiros super acumulados fosse queimada pela desvalorização em função da própria crise.

 

A combinação desses dois fatores seria o único cenário possível para que a economia pudesse voltar a ter algum crescimento a partir de 2021, o que não parece plausível. O Brasil, nesse cenário todo, se encontra duplamente complicado justamente pelo fato de ser uma economia dependente, ou seja, está inserido na economia mundial de uma maneira não proativa, portanto sofre o reflexo dessa recessão mundial, o que significa dizer que com a redução da renda mundial, as nossas exportações tendem a cair abruptamente e, portanto, a demanda externa pelos nossos produtos tende a cair abruptamente.

 

Por outro lado, a grande incerteza do mercado financeiro tende a fazer com que ocorra uma corrida ao dólar em todo mundo, ainda mais em países periféricos e com forte propensão a crises cambiais como a nossa, o que significa que a economia brasileira ainda vai sofrer uma fuga de capital talvez mais acelerada que a que já vivemos e isso se reflete no aumento da taxa de câmbio com todos os seus impactos deletérios para economia que conhecemos.

 

Portanto, a economia brasileira tem um impacto mais do que aprofundado nesse cenário de profunda recessão mundial. Isso tem os determinantes estruturais, o fato que estamos inseridos subordinadamente na divisão internacional do trabalho, mas também tem fatores conjunturais em função das estratégias de desenvolvimento liberais que vêm sendo implementadas no país há algumas décadas, agravadas por políticas econômicas em muitos dos casos pró-cíclicas, ou seja, aprofundam o movimento do ciclo e isso é algo que estamos vendo na economia brasileira também nesta conjuntura de curtíssimo prazo.

 

Se por um lado a política econômica do Brasil para tentar responder a essa crise dá alguns sinais de comportamento anticíclico, por exemplo, o Banco Central afrouxando mecanismos de reserva compulsória ou outro tipo de instrumento de atuação do Banco Central para aumentar a oferta em moeda de liquidez na economia é um sinal de política econômica anticíclica, mas esse mecanismo está empoçado, está parado nos bancos, uma vez que o que o Banco Central faz é aumentar essa liquidez para o sistema financeiro, para o sistema bancário, no intuito de que esse sistema bancário repassasse esse crédito para empresa, firmas, consumidores para expandir o nível de atividade da economia.

 

O problema é que os bancos, nesse elevado grau de incerteza, tendem a racionar o crédito, portanto segurar essa liquidez em seus ativos, e quando parte desses recursos é direcionado para crédito, eles são direcionados com altas taxas de juro, o que torna inviável qualquer tipo de plano de investimento produtivo mais alavancado na produção real propriamente dita. Portanto, este mecanismo da política monetária se torna ineficaz em função do elevado grau de incerteza na economia que restringe o crédito no sistema bancário.

 

Outra ação propalada pelo governo em tentar combater essa crise diz respeito a tímidas iniciativas de garantir algum tipo de renda ou benefício principalmente para trabalhadores informais e também para algumas empresas menores para tentar manter o pouco de atividade que resta delas e o nível de emprego a elas associado, mas essas medidas são muito tímidas, tanto em termos de valor, para ficar em um exemplo mais atual, o benefício de R$ 600 para os trabalhadores informais, que, diga-se de passagem, trata-se de um benefício extremamente tímido tanto pelo seu valor, R$ 600, ou seja, cerca de 60% do salário mínimo por três meses para trabalhadores e trabalhadoras que não têm nenhuma forma de ingresso nesse momento em que a atividade econômica está beirando o caos, ou seja, essas pessoas não têm de onde auferir algum tipo de renda tanto para manter o saneamento básico requerido nesse momento de pandemia, como inclusive para levar comida às suas residências.

 

Se trata, portanto, de um mecanismo extremamente insuficiente pelo valor, pela temporalidade, três meses apenas, e pelo seu caráter restrito porque não atinge a todos os indivíduos, todos os trabalhadores e trabalhadoras que são atingidos por essa paralisia da atividade econômica.  O que se requeria desse governo seria uma assistência muito maior a esses trabalhadores e trabalhadoras, não só os informais, claro, principalmente os informais, mas também os formais que têm redução das suas vendas e do seu poder aquisitivo, o que significa uma redução do componente da demanda da economia já problematizado pela redução da demanda externa para os nossos produtos.

 

Outro indicador, outro sintoma de contradições na sinalização da política econômica do governo, que deveria ser anticíclica para promover a volta da renda, da demanda, do emprego e, portanto, da atividade econômica, é a sinalização muito clara que parte não só do Legislativo, mas com apoio muito forte do Executivo, de redução de salários, por exemplo, do funcionalismo público, que em algumas cidades do país dá uma certa dinâmica ao próprio mercado.

 

A proposta que está para ser enviada a partir, mas para ser discutida no Congresso com apoio do Executivo, é de forte redução dos salários do funcionalismo público parece que nas três esferas, Executivo, Legislativo e Judiciário, de até 20% do total do rendimento bruto até 2024 sob a falsa alegação de que se trataria da única maneira que o governo teria de poupar recursos para poder atuar com gastos públicos e beneficiar aqueles trabalhadores mais pobres.

 

Isso é uma falácia tendo em vista os números de ajuda que o Banco Central tem dado ao sistema bancário que segurou esse dinheiro e, portanto, lá está empoçado, que já supera R$ 1 trilhão, porque recursos por outros canais estão sendo injetados na economia pelo sistema bancário e lá estão parados e, por outro lado, ao sinalizar que isso seria até o final de 2024, portanto está explicitando que não se trataria de uma medida emergencial para poder financiar outro tipo de gasto, mas de medida estruturante que faria parte justamente do aprofundamento da desestruturação do mercado de trabalho.

 

Nesse caso, dos funcionários públicos porque se trata de algo até 2024, ou seja, que fazia parte do pacote da estratégia de desenvolvimento deste governo do Paulo Guedes desde antes desse processo da crise que está sendo introduzido hoje em dia com a falsa desculpa de que seria a única forma de garantir que o Estado atuasse para se contrapor aos efeitos sociais e econômicos da crise.

 

Portanto, essa situação que vivemos na economia mundial e seus impactos para a economia brasileira é muito difícil, o governo não só está vacilante, mas quando sinaliza de maneira mais clara, sinaliza para o lado que não é o que outros governos estão fazendo ao redor do mundo e que tende a aprofundar ainda mais a crise, dada a situação que nos encontramos. Estamos à beira de uma tragédia social extremamente triste e lamentável contra a qual temos de lutar de todas as formas.

 

* Marcelo Carcanholo é professor de Economia na Universidade Federal Fluminense (UFF)

 

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