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Debate: O Brasil é um país independente?

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A cada passagem do 7 de setembro, quando se celebra a Independência do Brasil, datada de 1822, um questionamento se impõe à sociedade nacional e traz à tona uma triste realidade: somos, de fato, um país independente? A reflexão sobre este tema aparece ainda mais latente neste momento em que somos governados por um grupo que tem como premissa a entrega do pouco de soberania que ainda nos resta.

 

A privatização das estatais, o alinhamento às políticas neoliberais dos Estados Unidos e a destruição das garantias constitucionais que oferecem o mínimo de dignidade à população mais pobre, como a Previdência Social, promovidos por Jair Bolsonaro configuram o momento mais grave para nossa República na História.

 

Para debater o verdadeiro significado do termo independência no Brasil, o programa Faixa Livre convidou dois historiadores: o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-deputado federal Chico Alencar e o membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Hiran Roedel.

Hiran Roedel

Hiran Roedel

 

Retratado pelo pintor Pedro Américo no quadro “Independência ou morte”, o momento em que Dom Pedro I declamou a célebre frase às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo, que marcou simbolicamente a nossa emancipação de Portugal, guarda pouco de efetividade histórica.

 

“A única realidade retratada daquele momento épico, com cavalos resfolegantes, foi um camponês com carro de boi olhando assustado para aquilo. Nisso Pedro Américo acertou, ele mostrou que aquele grito do Ipiranga foi um momento utópico, local de uma independência que não foi para todo povo, ele ficou à margem”, destacou Chico.

 

Ao contrário do que muitos imaginam e a História conta, a iniciativa de se exigir autonomia dos colonizadores não se deu por uma insurgência do então Imperador do Brasil. A relação de interdependência econômica se dava desde aquela época.

 

“Na realidade, o Brasil pagou [pela independência]. Foi um grande conchavo das elites, da classe dominante, que resultou inclusive em sanar a dívida portuguesa. Como nós não tínhamos condições de pagar, a Inglaterra boazinha emprestou o dinheiro, que sequer saiu de lá porque Portugal devia aos ingleses”, rememorou o dirigente do PCB.

 

“Temos de buscar um projeto nacional que não seja autárquico, fechado, mas que afirme a prioridade para um padrão nacional de desenvolvimento, com cuidado ambiental, com respeito aos direitos dos trabalhadores” – Chico Alencar

 

“Teve muita negociação, muita conversação, é bom lembrar que Dom Pedro se tornou o primeiro com a independência. Ele era príncipe regente, filho de Dom João VI, de Portugal, que esteve aqui desde 1808, mas voltou para assumir o trono. Ele falava: ‘Pedro, se o Brasil se separar, antes que seja por ti, que hás de me respeitar, do que para alguns desses aventureiros’”, complementou o professor da UFRJ.

 

Ademais o processo histórico, que guarda uma série de contradições, a discussão sobre a efetiva independência do Brasil atravessa necessariamente os interesses dos detentores do capital financeiro no país e suas relações com as grandes corporações internacionais.

 

Amedrontado desde o óleo de Pedro Américo, o povo em momento algum do processo histórico atuou como protagonista das mudanças da nossa sociedade. Não coube às classes menos abastadas apenas o papel de coadjuvante, mas também o de sujeito aos anseios dos que ocupam o topo da pirâmide.

 

Chico Alencar

Chico Alencar

“O que dificulta é uma participação efetiva, autônoma da classe popular no processo político, que sempre foi esmagado. Há uma visão de que a sociedade brasileira não conviveu com grandes lutas populares, o que é uma grande mentira. Elas existiram em grande quantidade e foram violentamente esmagadas porque a classe dominante não vai abrir mão de seus privilégios como alguns acreditam que vão ceder no bate-papo. Não há a possibilidade dessa conciliação”, destacou Roedel.

 

Como exemplo da natureza ‘sanguinária’, como ele mesmo classificou, das elites no país, o historiador lembrou outro episódio retratado nos livros: o esquartejamento de Tiradentes, mártir da Inconfidência, que teve partes de seu corpo espalhadas no caminho até a cidade mineira de Ouro Preto.

 

“Quando falamos de um processo de independência, o que tem de se fazer é ir para as bases organizar essa classe popular para que efetivamente essa classe trabalhadora possa definir os rumos da sociedade, qual é o projeto de nação que queremos. Muitos dizem que o povo não gosta de política, mas não é questão de não gostar, não lhe é permitido. A condição que se tem para manter essa relação de dominação é justamente impedir a sua organização”, avaliou o militante comunista.

 

“Quem vai resolver o problema do trabalhador é o próprio trabalhador, quem vai resolver o problema do pobre é o próprio pobre” – Hiran Roedel

 

O presidente Jair Bolsonaro costuma evocar o nacionalismo em seus discursos, no entanto, seu alinhamento com o governo de Donald Trump aponta uma contradição importante. Por outro lado, ele promove o isolamento de parceiros comerciais importantes com medidas como os ataques aos direitos humanos e à floresta amazônica no Brasil, sem citar as declarações preconceituosas e ofensivas a líderes mundiais.

 

“O capitalismo está na sua etapa de financeirização. O imperialismo do século XIX é diferente do imperialismo do século XX, e nós não podemos considerar que ser soberano significa ser isolado do mundo, autárquico, isso é impossível. A atual conjuntura do governo Bolsonaro só faz aprofundar terrivelmente. Temos como principal parceiro comercial e econômico a República Popular da China, e antes de tomar posse, Bolsonaro fala que os chineses vão tomar conta do Brasil, começou a criar atritos com uma potência”, citou Chico.

 

Ouça o debate na íntegra:

 

 

Debate em 06.09.2019

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